domingo, 15 de março de 2026

CUIDADO COM O QUE VOCÊ PEDE A DEUS

 

Cezar Sena[1]


Dizem que não há nada pior do que não conseguir o que se quer. Eu discordo. O verdadeiro desafio começa justamente no momento em que a vida, ou o destino, se preferir, decide dizer "sim" para você.

 

Cuidado com o que você pede. Não porque Deus ou o universo sejam punitivos, mas porque eles são generosos e a generosidade da vida pode incluir te dar exatamente o que você pediu, só para te mostrar que você não sabia o que estava fazendo. A maturidade não está em parar de desejar, mas em aprender a desejar com responsabilidade. É entender que para cada "sim" que recebemos, há uma série de renúncias e esforços que vêm no pacote. Antes de clamar por uma nova porta se abrindo, certifique-se de que você tem fôlego para subir as escadas que estão do outro lado.

 

No mundo do desenvolvimento de carreira, somos treinados para o ataque. Planejamos o próximo cargo, o aumento salarial, a sala maior ou a gestão de uma equipe maior como se fossem a linha de chegada de uma maratona. Oramos e trabalhamos por essa "bênção" profissional com uma sede inesgotável. O problema é que, muitas vezes, o universo nos atende. E é aí que a ironia bate à porta: descobrimos que o desejo realizado se transformou em um fardo muito antes de virar uma recompensa.

 

Pedir por liderança é fácil; difícil é gerir o conflito humano na segunda-feira de manhã. Desejamos a autonomia da diretoria, mas esquecemos que ela vem acompanhada da solidão das decisões que ninguém quer tomar. Oramos por "novos desafios", mas reclamamos quando eles chegam sob a forma de crises, metas dobradas e responsabilidades que não nos deixam desligar o celular no fim de semana.

 

A grande armadilha da carreira moderna é desejar o status do cargo sem estar disposto a pagar o pedágio da função.

 

Existe uma sabedoria amarga em sentar na cadeira que você tanto cobiçou e perceber que o encosto é mais duro do que parecia de longe. Quando a conquista chega sem o preparo emocional ou a clareza do que ela exige, a "promoção dos sonhos" vira a "âncora da rotina".

 

A bênção se torna fardo quando percebemos que não queríamos o trabalho em si, mas apenas a validação que ele trazia. O resultado? Profissionais bem-sucedidos no papel, mas exaustos na alma, carregando conquistas como se fossem correntes.

 

Cuidado com o que você pede para sua carreira. Não porque você não mereça o sucesso, mas porque o sucesso é exigente. Ele não aceita amadores e cobra juros altos de quem só queria o bônus, sem o ônus.

 

Antes de clamar por uma nova porta se abrindo no seu caminho profissional, pergunte-se: "Eu tenho fôlego para subir as escadas que estão do outro lado, ou só quero a foto no topo?". Às vezes, o maior livramento da sua trajetória profissional não foi a promoção que você ganhou, mas aquela que, por sorte ou destino, você acabou perdendo. Afinal, a verdadeira vitória não é chegar ao topo, mas ter estrutura para permanecer lá sem ser esmagado pelo peso da própria coroa.



@PODSENA

[1] MESTRE em Educação – PUC/SP; Especialista em Gestão da Escola – USP; MBA em Gestão Empreendedora – UFF; Neuropsicopedagogo; Psicopedagogo e Pedagogo. Diretor da EE Valêncio Soares Rodrigues; Professor universitário; Escritor; Palestrante, Host do PODSENA, Coach e Influencer digital.  Instagram: @cezar.sena

domingo, 25 de janeiro de 2026

Preferimos os políticos de PROMESSAS aos de PROPÓSITOS

Cezar Sena[1]



Vamos ser sinceros: quem não adora uma boa promessa? Aquela fala mansa que nos entrega exatamente o que queremos ouvir, sem muito esforço, sem a chateação de pensar em como, quando ou por quê. No balcão da política, esse produto é um best-seller. Milhares de políticos são eleitos não por seus projetos consistentes ou por uma visão de futuro embasada, mas sim por venderem o paraíso com parcelas a perder de vista.

 

A ironia, meus caros, é que depois de comprar o pacote "sonho sem limites", somos os primeiros a reclamar da entrega. Ou, mais precisamente, da falta dela. Nos revoltamos nas redes sociais, indignamo-nos nos grupos de família, mas no fundo, bem no fundo, precisamos confessar: “nós preferimos os políticos de PROMESSAS aos de PROPÓSITOS”

 

E por que diabos fazemos isso? É um vício coletivo em gratificação instantânea. Uma promessa é como um doce: gostoso na hora, mas com consequências a longo prazo para a saúde pública (e de todas as outras áreas). O político de propósito, por outro lado, é como aquele médico que te receita dieta e exercícios: necessário, eficaz, mas um porre de seguir. Ele fala em sustentabilidade, em educação de base, em infraestrutura que não se vê de um dia para o outro. Ele fala em sacrifícios hoje para um futuro melhor. E quem quer ouvir isso quando o vizinho está prometendo um unicórnio para cada eleitor?

 

A verdade é que a política, essa "arte do bem coletivo", não funciona no piloto automático. Ela é um espelho do que somos, das nossas prioridades mais íntimas. Se continuamos a aplaudir o circo das promessas mirabolantes, se nos deixamos seduzir pela facilidade do discurso que não cobra nada em troca, estamos, na prática, escolhendo a estagnação em vez do avanço. Estamos trocando o desenvolvimento real por um piscar de olhos e uma falsa sensação de esperança.

 

É fácil apontar o dedo para "eles", os políticos. Mas e "nós"? Qual é o nosso propósito enquanto eleitores, enquanto cidadãos? Será que estamos dispostos a sair da zona de conforto de esperar milagres e começar a exigir planos? A valorizar a visão de longo prazo em detrimento do espetáculo eleitoreiro?

 

Se a política é a arte de gerir o que é comum a todos, então a qualidade dessa arte dependerá da sensibilidade e da consciência dos seus apreciadores – nós. Enquanto continuarmos a dar palco para quem promete rios de leite e mel sem sequer ter uma vaca ou uma abelha, continuaremos a viver num eterno "quase lá". É hora de amadurecer. É hora de curar o vício das promessas e abraçar a responsabilidade dos propósitos. O bem coletivo agradece. E o futuro, mais ainda.



[1] MESTRE EM EDUCAÇÃO: psicologia da educação – PUC/SP; Especialista em Gestão – USP; MBA em Gestão Empreendedora – UFF; Neuropsicopedagogo, psicopedagogo e pedagogo. Diretor de Escola Estadual; Prof. Universitário; Escritor, Coach e Palestrante.  Insta: @cezar.sena / Youtube: PODSENA

CUIDADO COM O QUE VOCÊ PEDE A DEUS

  Cezar Sena [1] Dizem que não há nada pior do que não conseguir o que se quer. Eu discordo. O verdadeiro desafio começa justamente no mom...