Cezar Sena[1]
Dizem
que não há nada pior do que não conseguir o que se quer. Eu discordo. O
verdadeiro desafio começa justamente no momento em que a vida, ou o destino, se
preferir, decide dizer "sim" para você.
Cuidado
com o que você pede. Não porque Deus ou o universo sejam punitivos, mas porque
eles são generosos e a generosidade da vida pode incluir te dar exatamente o
que você pediu, só para te mostrar que você não sabia o que estava fazendo. A
maturidade não está em parar de desejar, mas em aprender a desejar com
responsabilidade. É entender que para cada "sim" que recebemos,
há uma série de renúncias e esforços que vêm no pacote. Antes de clamar por uma
nova porta se abrindo, certifique-se de que você tem fôlego para subir as
escadas que estão do outro lado.
No
mundo do desenvolvimento de carreira, somos treinados para o ataque. Planejamos
o próximo cargo, o aumento salarial, a sala maior ou a gestão de uma equipe
maior como se fossem a linha de chegada de uma maratona. Oramos e trabalhamos
por essa "bênção" profissional com uma sede inesgotável. O problema é
que, muitas vezes, o universo nos atende. E é aí que a ironia bate à porta:
descobrimos que o desejo realizado se transformou em um fardo muito antes de
virar uma recompensa.
Pedir
por liderança é fácil; difícil é gerir o conflito humano na segunda-feira de
manhã. Desejamos a autonomia da diretoria, mas esquecemos que ela vem
acompanhada da solidão das decisões que ninguém quer tomar. Oramos por
"novos desafios", mas reclamamos quando eles chegam sob a forma de
crises, metas dobradas e responsabilidades que não nos deixam desligar o
celular no fim de semana.
A
grande armadilha da carreira moderna é desejar o status do cargo sem
estar disposto a pagar o pedágio da função.
Existe
uma sabedoria amarga em sentar na cadeira que você tanto cobiçou e perceber que
o encosto é mais duro do que parecia de longe. Quando a conquista chega sem
o preparo emocional ou a clareza do que ela exige, a "promoção dos
sonhos" vira a "âncora da rotina".
A
bênção se torna fardo quando percebemos que não queríamos o trabalho em si, mas
apenas a validação que ele trazia. O resultado? Profissionais bem-sucedidos no
papel, mas exaustos na alma, carregando conquistas como se fossem correntes.
Cuidado
com o que você pede para sua carreira. Não porque você não mereça o sucesso,
mas porque o sucesso é exigente. Ele não aceita amadores e cobra juros altos de
quem só queria o bônus, sem o ônus.
Antes
de clamar por uma nova porta se abrindo no seu caminho profissional,
pergunte-se: "Eu tenho fôlego para subir as escadas que estão do outro
lado, ou só quero a foto no topo?". Às vezes, o maior livramento da
sua trajetória profissional não foi a promoção que você ganhou, mas aquela que,
por sorte ou destino, você acabou perdendo. Afinal, a verdadeira vitória não
é chegar ao topo, mas ter estrutura para permanecer lá sem ser esmagado pelo
peso da própria coroa.
[1] MESTRE em Educação – PUC/SP; Especialista em Gestão da Escola –
USP; MBA em Gestão Empreendedora – UFF; Neuropsicopedagogo; Psicopedagogo e
Pedagogo. Diretor da EE Valêncio Soares Rodrigues; Professor universitário;
Escritor; Palestrante, Host do PODSENA, Coach e Influencer digital. Instagram: @cezar.sena

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