quarta-feira, 15 de julho de 2026

O LUTO É UM ATO SOLITÁRIO

 

Cezar Sena

O luto, descobri da maneira mais dura, é uma trincheira onde só cabe um. Nos corredores do velório, o ar é denso, preenchido por abraços apertados, sussurros de consolo e promessas que soam como âncoras: "Podem contar comigo", "Estarei aqui para o que precisar". Mas o tempo, implacável, segue o seu curso. Os dias viram as páginas do calendário, o eco das vozes se dissipa e, quando a porta de casa se fecha, a realidade se impõe. As ajudas não vêm. No final, é apenas você e a sua dor. Não digo isso com amargura ou ressentimento, mas com a fria clareza dos fatos. A vida lá fora tem pressa, as pessoas têm suas próprias batalhas, mas aqui dentro, a vontade de compartilhar um detalhe bobo do dia com quem já partiu permanece intacta.

 

Ainda bem que a solidão e eu somos velhos conhecidos. Aprendi a fazer dela uma amiga, companheira e uma conselheira silenciosa que me deixa mais criativo, sensitivo e atento às entrelinhas da vida. Prefiro esse silêncio honesto a estar cercado de companhias forjadas pela obrigação, pela pena ou por um dó que diminui quem sente.

 

Contudo, confesso que a alma humana é teimosa. Bem lá no fundo, eu nutria a frágil esperança de que aqueles rostos familiares e próximos, que me juraram amparo no dia da despedida, pudessem se lembrar de mim. Uma mensagem. Um convite para um café. Um café que, na verdade, nunca é sobre a bebida, mas sobre o pretexto sagrado para prosear, para dividir o peso, para oferecer um ombro. Esse convite não chegou. E, no silêncio desse café que não tomei, aprendi mais uma lição: o luto é um processo intransferível. O coletivo, sem dúvida, teria o poder de anestesiar as bordas da ferida, mas a vida me ensinou a criar uma couraça. Esperar cada vez menos do outro não é arrogância, tampouco egoísmo. É instinto de sobrevivência. A luta é minha. A dor tem meu nome. Sou eu quem deve levantar a mão e pedir socorro quando a água bater no pescoço, e não ficar à margem, esperando o bote de resgate.

Ninguém pode sofrer no meu lugar. O luto é uma travessia, um processo que exige movimento, não um estado permanente de paralisia da alma.

 

Lembro-me das palavras do Evangelho, um farol perfeito para esses dias cinzentos. Há aqueles que, ao jejuar, desfiguram o rosto para que todos vejam o seu sacrifício. No luto, a tentação é a mesma. Exige-se uma performance de melancolia, um abatimento crônico para validar a dor aos olhos do mundo. Eu escolhi um caminho diferente. Escolhi continuar honrando a vida dela através da minha. Fui aos festejos juninos. Reencontrei amigos. Deixei que as risadas frouxas sobre as nossas antigas aventuras de infância e juventude preenchessem o ar.

 

Mas, por dentro, o coração era um nó apertado. Quando tocou aquele forrozinho que eu amo tanto, um ritmo que bate direto no compasso das minhas raízes lá de Jucuruçu, meus pés não saíram do chão. Não consegui dançar. Talvez o medo invisível do julgamento alheio tenha me acorrentado: "Como ele pode estar aqui, sorrindo e festejando, com a mãe tendo acabado de partir?" É humano. Todos nós, em alguma medida, somos reféns do tribunal das aprovações invisíveis.

 

Hoje, ao marcar um mês da sua partida, a névoa da tristeza começa a dar lugar à claridade dourada da gratidão. Que privilégio incomensurável foi ser seu filho. Guardo no cofre mais seguro da memória o cheiro inconfundível das suas comidas, a firmeza amorosa das suas broncas, o seu zelo incansável pelo meu pai (Miro Pilão) e por nós, seus seis filhos (Cleuma, Cleiton, Cleia, Ronaldo e Renata).

 

O que nos consola e nos reergue diariamente é a certeza inabalável de que tudo nesta vida é passageiro. O sofrimento, as lágrimas, a angústia e até mesmo a morte... tudo passa. Menos o AMOR DE DEUS por nós. É esse amor eterno que preenche o vazio deixado na alma. É Ele quem nos lembra que a dor não é o ponto final, mas apenas uma vírgula. A Vida sempre tem a última palavra.

Como cristão, minha dor não é um ponto final, é uma vírgula. A cruz estava vazia, e por isso tenho a certeza absoluta de que a Vida sempre tem a última palavra sobre a morte. Continuarei aqui, caminhando, sorrindo e, um dia, voltando a dançar o meu forró, honrando o seu legado em cada passo. Obrigado MÃE, por tudo para sempre.

 

Maria Sena Varges: 15/08/1955 + 15/06/2026

 


O LUTO É UM ATO SOLITÁRIO

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