Cezar Sena
O luto, descobri da maneira mais dura, é uma trincheira onde
só cabe um. Nos corredores do velório, o ar é denso, preenchido por abraços
apertados, sussurros de consolo e promessas que soam como âncoras: "Podem
contar comigo", "Estarei aqui para o que precisar".
Mas o tempo, implacável, segue o seu curso. Os dias viram as páginas do
calendário, o eco das vozes se dissipa e, quando a porta de casa se fecha, a
realidade se impõe. As ajudas não vêm. No final, é apenas você e a sua dor.
Não digo isso com amargura ou ressentimento, mas com a fria clareza dos fatos.
A vida lá fora tem pressa, as pessoas têm suas próprias batalhas, mas aqui
dentro, a vontade de compartilhar um detalhe bobo do dia com quem já partiu
permanece intacta.
Ainda
bem que a solidão e eu somos velhos conhecidos. Aprendi a fazer dela uma amiga,
companheira e uma conselheira silenciosa que me deixa mais criativo, sensitivo
e atento às entrelinhas da vida. Prefiro esse silêncio honesto a estar
cercado de companhias forjadas pela obrigação, pela pena ou por um dó que
diminui quem sente.
Contudo,
confesso que a alma humana é teimosa. Bem lá no fundo, eu nutria a frágil
esperança de que aqueles rostos familiares e próximos, que me juraram amparo no
dia da despedida, pudessem se lembrar de mim. Uma mensagem. Um convite para um
café. Um café que, na verdade, nunca é sobre a bebida, mas sobre o pretexto
sagrado para prosear, para dividir o peso, para oferecer um ombro. Esse convite
não chegou. E, no silêncio desse café que não tomei, aprendi mais uma lição: o
luto é um processo intransferível. O coletivo, sem dúvida, teria o poder de
anestesiar as bordas da ferida, mas a vida me ensinou a criar uma couraça.
Esperar cada vez menos do outro não é arrogância, tampouco egoísmo. É instinto
de sobrevivência. A luta é minha. A dor tem meu nome. Sou eu quem deve levantar
a mão e pedir socorro quando a água bater no pescoço, e não ficar à margem,
esperando o bote de resgate.
Ninguém
pode sofrer no meu lugar. O luto é uma travessia, um processo que exige
movimento, não um estado permanente de paralisia da alma.
Lembro-me
das palavras do Evangelho, um farol perfeito para esses dias cinzentos. Há
aqueles que, ao jejuar, desfiguram o rosto para que todos vejam o seu
sacrifício. No luto, a tentação é a mesma. Exige-se uma performance de
melancolia, um abatimento crônico para validar a dor aos olhos do mundo. Eu
escolhi um caminho diferente. Escolhi continuar honrando a vida dela através da
minha. Fui aos festejos juninos. Reencontrei amigos. Deixei que as risadas
frouxas sobre as nossas antigas aventuras de infância e juventude preenchessem
o ar.
Mas,
por dentro, o coração era um nó apertado. Quando tocou aquele forrozinho que eu
amo tanto, um ritmo que bate direto no compasso das minhas raízes lá de
Jucuruçu, meus pés não saíram do chão. Não consegui dançar. Talvez o medo
invisível do julgamento alheio tenha me acorrentado: "Como ele pode
estar aqui, sorrindo e festejando, com a mãe tendo acabado de partir?"
É humano. Todos nós, em alguma medida, somos reféns do tribunal das aprovações
invisíveis.
Hoje,
ao marcar um mês da sua partida, a névoa da tristeza começa a dar lugar à
claridade dourada da gratidão. Que privilégio incomensurável foi ser seu filho.
Guardo no cofre mais seguro da memória o cheiro inconfundível das suas comidas,
a firmeza amorosa das suas broncas, o seu zelo incansável pelo meu pai (Miro
Pilão) e por nós, seus seis filhos (Cleuma, Cleiton, Cleia, Ronaldo e Renata).
O que nos consola e nos reergue
diariamente é a certeza inabalável de que tudo nesta vida é passageiro. O
sofrimento, as lágrimas, a angústia e até mesmo a morte... tudo passa. Menos o AMOR
DE DEUS por nós. É esse amor eterno que preenche o vazio deixado na alma. É
Ele quem nos lembra que a dor não é o ponto final, mas apenas uma vírgula. A
Vida sempre tem a última palavra.
Como
cristão, minha dor não é um ponto final, é uma vírgula. A cruz estava vazia, e
por isso tenho a certeza absoluta de que a Vida sempre tem a última palavra
sobre a morte. Continuarei aqui, caminhando, sorrindo e, um dia, voltando a
dançar o meu forró, honrando o seu legado em cada passo. Obrigado MÃE, por
tudo para sempre.
Maria
Sena Varges: 15/08/1955 + 15/06/2026
