sábado, 15 de agosto de 2026

MAIS MÃES COMO MARIAZINHA: Uma crônica de saudade, gratidão e respeito

 

Por Cezar Sena

 

Há datas na vida que não passam pela folhinha do calendário como dias comuns; elas chegam com o peso bonito da saudade e o perfume suave da memória. Neste 15 de agosto, se o tempo dos homens ainda fosse o seu, minha mãe Mariazinha completaria 72 anos. Fazem exatamente dois meses que a sua voz emudeceu neste plano, mas o eco das suas lições continua ressoando firme, vívido e inegociável dentro de mim. Escrever sobre ela não é apenas um ato de nostalgia, é um imperativo do coração: a celebração do orgulho imenso de ter sido, e de para sempre ser, o seu filho.

 

Enquanto digito estas linhas, confessionais e dolorosas, as lágrimas insistem em rolar sem pedir licença. A vista embaça diante da tela e mal consigo enxergar o teclado e o monitor do computador. O questionamento silencioso vem involuntário e pesado: por que a senhora foi embora tão cedo, mãe? Tinha e ainda tenho tantas coisas para compartilhar com a senhora... Nossas conversas sobre as novidades do dia a dia, as confidências sobre as vidas dos meus irmãos mais novos, exatamente como costumávamos conversar de peito aberto no nosso canto. Essa ausência dói na alma.

 

Mariazinha foi a síntese da mulher simples, determinada e dotada de um espírito empreendedor nato. Primogênito entre seis irmãos, cabia a mim o papel involuntário de pioneiro de suas diretrizes. E ser o mais velho, naquele tempo, significava carregar o selo da maior cobrança. Sim, a disciplina chegava sem atalhos: os chinelos, os cintos e os castigos pontuais faziam parte do arsenal educativo do qual ela lançava mão para moldar nosso caráter. Não faço aqui apologia às palmadas — compreendo a perspectiva histórica de um tempo em que as correções eram naturalizadas —, mas registro a intenção inviolável de uma mãe que jamais aceitou ver seus filhos à deriva.

 

Desde muito pequeno, fui uma criança irrequieta, “esperta”, daquelas que aprendiam rápido e decifravam com facilidade as entrelinhas da vida. Porém, a mesma mente ágil era também questionadora. Eu não aceitava passivamente o “porque sim” ou o “sempre foi assim”. Desafiar as normas postas, naquele contexto, soava como desobediência e falta de educação. O resultado? Castigos frequentes, que hoje recordo com um sorriso nostálgico, consciente de que minha vivacidade testava diariamente a paciência daquela mulher de ferro.

 

Mas o que ficou gravado a ferro e fogo na minha alma foi o seu cuidado inegociável com a nossa educação. Na casa de dona Mariazinha, faltar à aula por mero desânimo simplesmente não existia. A frase "mãe, não estou afim de ir à escola hoje" jamais encontraria abrigo sob o nosso teto. E vale lembrar: em uma época em que a educação básica sequer era obrigatória por lei como é hoje, ela já enxergava o estudo como o único passaporte possível para a dignidade.

 

Com apenas a 2ª série do ensino primário, dona Mariazinha possuía a sabedoria das gigantes. Sentava-se ao meu lado à mesa para supervisionar as tarefas até a 4ª série. A rua, as brincadeiras e as visitas nas casas dos parentes só existiam depois da lição de casa impecavelmente cumprida e dos deveres domésticos realizados. A disciplina não era um fardo, era o trilho sobre o qual construíamos o futuro.

 

Ela me ensinou o valor do trabalho e da responsabilidade muito cedo. Aos 5 anos de idade, eu já sabia ler e saía pelas ruas vendendo os doces e biscoitos que ela preparava. Eu tinha minhas obrigações, mas ela fazia questão de me dar a minha comissão. Ali, no chão da vida real, Mariazinha me ensinava a empreender, a valorizar o fruto do próprio suor e a cuidar do que era meu.

 

Em semana de provas, a rotina triplicava de rigor. E se a professora ousasse fazer alguma reclamação da minha conduta... a correção era certa. Sendo um aluno agitado e com raciocínio acima da média, eu terminava minhas lições muito antes dos outros e logo começava a brincar, desconcentrando a turma. Quem levava a culpa pelo atraso dos colegas? Eu, sem dúvida! De nada adiantavam meus argumentos lógicos para tentar explicar que cada um tinha seu ritmo. Para Mariazinha, a palavra do professor era uma lei sagrada, incontestável e soberana.

Vivendo hoje o cotidiano da gestão escolar como diretor, percebo o abismo entre o ontem e o hoje. Sinto uma saudade profunda de mães parceiras como Mariazinha. Quantas vezes assisto a pais defenderem cegamente deslizes e mentiras dos filhos, hostilizando professores e a instituição, para só depois descobrirem que foram enganados — e, em vez de se retratarem, preferem acusar a escola e alguns casos transferir o filho. Por outro lado, quantas vezes convocamos responsáveis por atos de indisciplina ou infrações e eles simplesmente não aparecem, mas basta uma palavra mais ríspida da equipe pedagógica para que venham tirar satisfações e defender sem procurar saber os fatos. Não generalizo, pois sei que ainda existem famílias parceiras, mas a fragilidade atual dos limites é alarmante. Que inversão de valores! Que tempo estamos vivendo!

 

Por tudo isso, minha gratidão a você, mãe, é infinita. Obrigado por ter me ensinado a respeitar os professores, os mais velhos, o valor do conhecimento e o amor pela igreja. Na sua pedagogia simples e sábia, criança não tinha que "querer" nada antes do tempo; tínhamos que aprender a ser cidadãos de bem. Suas frases retumbavam com autoridade amorosa: "Quando for adulto, você escolhe. Enquanto morar na minha casa, as regras são minhas."

 

E a maior prova do seu triunfo é que não cresci traumatizado, revoltado ou alienado. Cresci forte, consciente, educador e profundamente grato. A senhora cumpriu sua missão com maestria e deixou um legado inabalável. Que o mundo possa resgatar a essência e a coragem de ser mãe como você foi. Viva a memória de dona Mariazinha!

 

Vargem Grande Paulista, SP 15 de agosto de 2026.

MAIS MÃES COMO MARIAZINHA: Uma crônica de saudade, gratidão e respeito

  Por Cezar Sena   Há datas na vida que não passam pela folhinha do calendário como dias comuns; elas chegam com o peso bonito da saudad...