Por Cezar Sena
Há datas na vida que não passam pela
folhinha do calendário como dias comuns; elas chegam com o peso bonito da
saudade e o perfume suave da memória. Neste 15 de agosto, se o tempo dos homens
ainda fosse o seu, minha mãe Mariazinha completaria 72 anos. Fazem exatamente
dois meses que a sua voz emudeceu neste plano, mas o eco das suas lições
continua ressoando firme, vívido e inegociável dentro de mim. Escrever sobre
ela não é apenas um ato de nostalgia, é um imperativo do coração: a celebração
do orgulho imenso de ter sido, e de para sempre ser, o seu filho.
Enquanto digito estas linhas,
confessionais e dolorosas, as lágrimas insistem em rolar sem pedir licença. A
vista embaça diante da tela e mal consigo enxergar o teclado e o monitor do
computador. O questionamento silencioso vem involuntário e pesado: por que a
senhora foi embora tão cedo, mãe? Tinha e ainda tenho tantas coisas para
compartilhar com a senhora... Nossas conversas sobre as novidades do dia a dia,
as confidências sobre as vidas dos meus irmãos mais novos, exatamente como
costumávamos conversar de peito aberto no nosso canto. Essa ausência dói na
alma.
Mariazinha foi a síntese da mulher
simples, determinada e dotada de um espírito empreendedor nato. Primogênito
entre seis irmãos, cabia a mim o papel involuntário de pioneiro de suas
diretrizes. E ser o mais velho, naquele tempo, significava carregar o selo da
maior cobrança. Sim, a disciplina chegava sem atalhos: os chinelos, os cintos e
os castigos pontuais faziam parte do arsenal educativo do qual ela lançava mão
para moldar nosso caráter. Não faço aqui apologia às palmadas — compreendo a
perspectiva histórica de um tempo em que as correções eram naturalizadas —, mas
registro a intenção inviolável de uma mãe que jamais aceitou ver seus filhos à
deriva.
Desde muito pequeno, fui uma criança
irrequieta, “esperta”, daquelas que aprendiam rápido e decifravam com
facilidade as entrelinhas da vida. Porém, a mesma mente ágil era também
questionadora. Eu não aceitava passivamente o “porque sim” ou o “sempre foi assim”.
Desafiar as normas postas, naquele contexto, soava como desobediência e falta
de educação. O resultado? Castigos frequentes, que hoje recordo com um sorriso
nostálgico, consciente de que minha vivacidade testava diariamente a paciência
daquela mulher de ferro.
Mas o que ficou gravado a ferro e fogo na
minha alma foi o seu cuidado inegociável com a nossa educação. Na casa de dona
Mariazinha, faltar à aula por mero desânimo simplesmente não existia. A frase "mãe,
não estou afim de ir à escola hoje" jamais encontraria abrigo sob o
nosso teto. E vale lembrar: em uma época em que a educação básica sequer era
obrigatória por lei como é hoje, ela já enxergava o estudo como o único
passaporte possível para a dignidade.
Com apenas a 2ª série do ensino primário,
dona Mariazinha possuía a sabedoria das gigantes. Sentava-se ao meu lado à mesa
para supervisionar as tarefas até a 4ª série. A rua, as brincadeiras e as
visitas nas casas dos parentes só existiam depois da lição de casa
impecavelmente cumprida e dos deveres domésticos realizados. A disciplina não
era um fardo, era o trilho sobre o qual construíamos o futuro.
Ela me ensinou o valor do trabalho e da
responsabilidade muito cedo. Aos 5 anos de idade, eu já sabia ler e saía pelas
ruas vendendo os doces e biscoitos que ela preparava. Eu tinha minhas
obrigações, mas ela fazia questão de me dar a minha comissão. Ali, no chão da
vida real, Mariazinha me ensinava a empreender, a valorizar o fruto do próprio
suor e a cuidar do que era meu.
Em semana de provas, a rotina triplicava
de rigor. E se a professora ousasse fazer alguma reclamação da minha conduta...
a correção era certa. Sendo um aluno agitado e com raciocínio acima da média,
eu terminava minhas lições muito antes dos outros e logo começava a brincar,
desconcentrando a turma. Quem levava a culpa pelo atraso dos colegas? Eu, sem
dúvida! De nada adiantavam meus argumentos lógicos para tentar explicar que
cada um tinha seu ritmo. Para Mariazinha, a palavra do professor era uma lei sagrada,
incontestável e soberana.
Vivendo hoje o cotidiano da gestão escolar
como diretor, percebo o abismo entre o ontem e o hoje. Sinto uma saudade
profunda de mães parceiras como Mariazinha. Quantas vezes assisto a pais
defenderem cegamente deslizes e mentiras dos filhos, hostilizando professores e
a instituição, para só depois descobrirem que foram enganados — e, em vez de se
retratarem, preferem acusar a escola e alguns casos transferir o filho. Por
outro lado, quantas vezes convocamos responsáveis por atos de indisciplina ou
infrações e eles simplesmente não aparecem, mas basta uma palavra mais ríspida
da equipe pedagógica para que venham tirar satisfações e defender sem procurar saber
os fatos. Não generalizo, pois sei que ainda existem famílias parceiras, mas a
fragilidade atual dos limites é alarmante. Que inversão de valores! Que tempo
estamos vivendo!
Por tudo isso, minha gratidão a você, mãe,
é infinita. Obrigado por ter me ensinado a respeitar os professores, os mais
velhos, o valor do conhecimento e o amor pela igreja. Na sua pedagogia simples
e sábia, criança não tinha que "querer" nada antes do tempo; tínhamos
que aprender a ser cidadãos de bem. Suas frases retumbavam com autoridade
amorosa: "Quando for adulto, você escolhe. Enquanto morar na minha
casa, as regras são minhas."
E a maior prova do seu triunfo é que não
cresci traumatizado, revoltado ou alienado. Cresci forte, consciente, educador
e profundamente grato. A senhora cumpriu sua missão com maestria e deixou um
legado inabalável. Que o mundo possa resgatar a essência e a coragem de ser mãe
como você foi. Viva a memória de dona Mariazinha!
Vargem Grande Paulista, SP 15 de agosto de
2026.

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