quinta-feira, 10 de novembro de 2022

A EDUCAÇÃO COMO MISSÃO




 

Cezar Sena[1]

Que a educação é importante e necessária para a humanidade, não há dúvidas. É o maior legado que os pais desejam deixar para os filhos. Quem nunca ouviu os famosos ditados “estude meu filho para ser alguém na vida” ou “educação é o maior tesouro”. Os políticos apontam que a educação é a prioridade nos seus programas de governos. Mas infelizmente como podemos verificar nos resultados, não passam de retórica e programas de intenções. Nosso país ainda continua na lanterninha no ranking mundial de educação, apesar de muitos investimentos financeiros. É inegável o considerável aumento do acesso à educação, mas no quesito de qualidade, continuamos patinando.

Me tornei educador por acreditar no poder de transformação social e pessoal da educação. Assumir o desafio como a MISSÃO da minha vida. Mas não foi uma escolha a priori. Tinha o sonho de estudar psicologia ou direito, mas a realidade me levou a cursar pedagogia (curso que podia pagar na época). No princípio a ideia era apenas conseguir emprego como professor para bancar meu sonho. Como sou determinado e dedicado, procurei dar o melhor nos estudos, fui aperfeiçoando cada vez mais, e aos poucos, sem perceber, tinha sido “contaminado” pelo “vírus” da educação, emendando a graduação com especializações, cursos de atualizações, MBA, mestrado em educação, me profissionalizando cada vez mais.

Nestes mais de 25 anos de atuação, atuando em vários cargos e funções, tenho convicção que a educação me proporcionou inúmeras conquistas, sou quem sou, graças ao poder transformador da educação. Todo o educador precisa ter ciência e consciência que por meio da sua atuação profissional está contribuindo para a melhoria da sociedade. Como já dizia Paulo Freire no seu livro Pedagogia da Autonomia “Não posso ensinar o que não sei. Mas, este, repito, não é saber de que apenas devo falar e falar com palavras ao vento leva. É saber, pelo contrário, que devo viver concretamente com os educandos. O melhor discurso sobre ele é o exercício de sua prática”.  

O gosto de aprender para ensinar me acompanha deste a infância. Puxando a memória, posso dizer que desde criança exerci a prática educadora: catequista aos 13 anos; líder de grupo de jovens, da Pastoral da Crianças e coordenador de comunidade aos 15 anos (na Bahia). A primeira vez que entrei numa sala de aula formalmente como professor foi aos 17 anos, para alfabetizar os pais das crianças atendidas pela Pastoral da Criança, na época estudante do magistério (1989).  

No seu livro o Grande Potencial, o autor Shawn Achor, diferencia os conceitos de emprego, carreira e missão. “Um emprego não passa de uma atividade a ser suportada em troca de um salário. Uma carreira é um trabalho que oferece prestígio ou uma posição na sociedade. Uma missão é um trabalho que você considera parte integral da sua identidade e do sentido da sua vida, uma expressão de quem você é e uma fonte de gratificação e propósito”. Portando, partindo desses pressupostos posso afirmar que na educação descobri o meu propósito de vida, que é contribuir por meio da minha atuação profissional para uma sociedade mais justa, plural e solidária, ou seja, fazer a diferença na vida das pessoas. Deixo aqui um conselho - Descubra e assuma sua missão e verás que o peso das responsabilidades se tornará mais leve e gratificante.



[1] Mestre em Educação – PUC/SP; Especialista em Gestão – USP; MBA em Gestão Empreendedora – UFf; Diretor de Escola Estadual; Prof. Universitário; Escritor, Coach e Palestrante.  Insta: @cezar.sena / Youtube: Cezar Sena

terça-feira, 18 de outubro de 2022

Reflexão de um CINQUENTÃO.

 


Cezar Sena [1]

Cheguei a meio século de vida. E como amanheceu o dia hoje? Nublado, chuvoso, bom para ficar quietinho, lendo um bom livro, ouvindo música e tomando um vinho como costumo fazer às vezes. No entanto o dia amanheceu com todos os outros dias, independentemente da minha vontade. Imaginei tanto essa data como se fosse um evento mágico, transformador e cabalístico. Decepcionado? Não! Mas estou mais reflexivo, nostálgico, procurando alguns sinais dessa maturidade que o tempo nos possibilita.

Minha mente viajou imaginando as várias possibilidades de escrever a respeito desta data tão aguardada e simbólica para mim. Sim! Estava ansioso para completar 50 anos. Penso que a maior novidade deste momento foi assumir a identidade de escritor como estratégia de transição – aposentaria. Ela sempre esteve por aqui, quase sempre abafei, ora por falta de tempo, ora por não acreditar no potencial. Trago a memória, o primeiro livro escrito datilografado e ilustrado por mim quando tinha 15 anos “Grilos de adolescentes”. E agora quais são os “grilos” do cinquentão? Confesso que ainda carrego comigo alguns daqueles “grilos”: medo de ser rejeitado, não ser bom o suficiente, de decepcionar as pessoas que amo etc.

Pensei em escrever uma lista de 50 motivos de gratidão pelos 50 anos. Mas achei a ideia cafona. Talvez não seja tão cafona assim. A verdade que não conseguir encontrar 50 motivos extraordinários para compartilhar, por isso desistir. Mas veio à mente várias cenas que marcaram minha vida (infância, juventude e vida adulta). E uma sensação de GRATIDÃO invade minha alma. Foram tantas conquistas não imaginadas, tanto no campo pessoal, quanto profissional. Mas do alto dos 50 anos, percebi que os fatos marcantes, foram os mais simples, despretensiosos, vividos no momento presente. Não vou cansar o leitor com os 50 motivos (embora tenha feito uma boa lista), mas compartilho um episódio determinante, de luta pela sobrevivência com determinação e fé, características que me define.

Nasci em 18/10/1972 em Jucuruçu (cidadezinha no Extremo Sul da Bahia, hoje com 10 mil habitantes). Minha mãe relata que por volta dos 6 meses, tive desnutrição infantil, por não conseguir alimentar e não “pegar o leite de peito”, o que levou a perda de peso, fiquei só cabeça, pele e osso, chegando a “morrer” 03 vezes, até colocaram vela na mão e tudo (tradição baiana colocar vela na mão dos defuntos). Mas enquanto todos estavam chorando, voltei a respirar a vida recomeçou. O milagre ocorreu! E de lá para cá presenciei pequenos “milagres” cotidianos. Devido a desnutrição, fui andar com 1 ano e 7 meses. Entende agora por que sou teimoso, determinado e resiliente? Tive que aprender a lutar pela vida desde muito cedo.

A vida é uma DÁDIVA que não devemos desperdiçar com reclamações, medos ou lamentando os defeitos. Com a metade da vida – já descendo a curva, percebo que o essencial é VIVER O MOMENTO PRESENTE, desapegado da ideia infantil de querer agradar todos, do medo de ser rejeitado, de errar. A maturidade nos traz autoconhecimento, que nos leva reconhecer as fragilidades de maneira positiva e sincera. Que venha mais desafios! Estou pronto para esta nova etapa/ciclo. Ligando o motor 5.0. Mas daqui para frente, sem muita pressa, quero apreciar mais a paisagem do que a chegada.

Vargem Grande Paulista, SP. 18 de outubro de 2022.



[1] Professor, Escritor, Diretor de escola. Mestre em Educação, Neuropsicopedagogo, Psicopedagogo e Pedagogo. @cezar.sena

quarta-feira, 14 de setembro de 2022

 

EDUCAÇÃO ESPECIAL X EDUCAÇÃO INCLUSIVA


Cezar Sena[1]

Desde a promulgação da Constituição de 1988, independentemente da sua condição, TODOS os brasileiros têm direito a educação. Em 1996, com base nos princípios constitucionais, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) definiu e regularizou a organização do sistema educacional brasileiro, sendo que a oferta do direito à educação deve ocorrer preferencialmente em classes regulares.

Apesar de já terem se passado mais de trinta anos desde a promulgação da Constituição, ainda estamos discutindo o acesso e a permanência nas escolas de pessoas com deficiências, transtornos ou síndromes. A lei garante a matrícula, mas não garante a APRENDIZAGEM. O fato é que o sistema educacional brasileiro continua sem atender efetivamente todos os alunos, e aqueles da Educação Especial são os mais prejudicados. A pandemia de Covid-19 evidenciou ainda mais esse problema.

            É importante esclarecer que Educação Especial é uma MODALIDADE DE ENSINO, como a Educação de Jovens e Adultos, Educação Indígena, Educação à Distância etc. Modalidade, nesse contexto, refere-se aos modos e procedimentos institucionais e pedagógicos utilizados para garantir a aprendizagem de todas as pessoas de um determinado público-alvo. As modalidades perpassam todos os níveis de Ensino – desde a Educação Infantil até o Ensino Superior, pois os procedimentos pedagógicos para atendimento de crianças indígenas ou de crianças com deficiência são diferentes, devendo-se moldar às necessidades de cada grupo.

Já a Educação Inclusiva é uma CONCEPÇÃO DE ENSINO. É acreditar que, apesar das diferenças e deficiências, TODOS são capazes de aprender, desde que se encontre um educador capaz de ensinar. Este educador precisa oferecer oportunidades para o desenvolvimento das potencialidades de cada educando, a partir das suas especificidades. Sociedades e escolas INCLUSIVAS são aquelas que respeitam e valorizam as diferenças; que não colocam obstáculos para o atendimento; e, acima de tudo, que acolhem com dignidade e respeito.

            No entanto, sabemos que a realidade não acompanha a teoria. Tanto a escola quanto a sociedade continuam com dificuldades de oferecer uma educação de qualidade para todos. Além disso, apesar de uma acentuada melhora nos discursos, o preconceito ainda é uma questão presente, estrutural. As práticas no dia a dia divergem dos discursos e legislações.

Precisamos parar de procurar culpados, dizendo que as escolas não estão preparadas para receber as pessoas com deficiências, transtornos ou síndromes, que o professor não teve formação adequada etc. Pergunto: os pais dessas crianças estavam preparados para recebê-los? Em tese o professor está mais preparado do que os pais: ele fez uma licenciatura, é um profissional da educação, aceitou o contrato de trabalho. Ao assumir uma sala de aula, ele assume os desafios e a responsabilidade de ensinar a todos seus alunos.

Nós, educadores, precisamos de menos reclamação e mais ação. Necessitamos sair da zona de conforto, das desculpas e parar de dizer que não estamos preparados para lidar com a situação. Não serão apenas os cursos de especialização que nos darão a preparação, mas sim a abertura para o outro, a compreensão de que, antes da deficiência, transtorno ou síndrome, existe uma pessoa humana que merece nosso respeito, acolhimento e profissionalismo. Assim, quando família, escola e órgão de proteção trabalham juntas, inicia o processo de efetivo de Educação Inclusiva.

 

Publicado no jornal da ACE - Ano XIV- Nº 150 - Setembro/2022



[1] Mestre em Educação – PUC/SP; Especialista em Gestão – USP; MBA em Gestão Empreendedora – UFF; Diretor de Escola Estadual e Prof. Universitário. Instagram: @cezar.sena / YouTube: Cezar Sena

terça-feira, 21 de junho de 2022

A VIOLÊNCIA NAS ESCOLAS É RESPONSABILIDADE DE TODOS

Desde o retorno às aulas presenciais no ano passado, verificou-se um aumento considerável da violência no contexto escolar. Naquele momento achou-se que seria um fenômeno pontual, que esses atos diminuiriam na medida do aumento da convivência entre os alunos. Mas não foi o que aconteceu. Com o tempo, os atos violentos aumentaram. Diariamente verificamos nos telejornais e mídias sociais casos de agressão no ambiente escolar. Presenciei violência gratuita por parte de alunos que não faziam parte do grupo dos “bagunceiros”. Depois do ocorrido, ficavam surpresos com as consequências do “sem querer” ou “ele que começou”. 

A partir das observações dos atendimentos dos alunos encaminhados para a direção, percebi algumas possíveis causas desses atos: famílias desorganizadas, não aceitação pelo grupo, preconceito, ansiedade, falta de diálogo e de empatia, dificuldades de seguir regras e combinados etc. Esses fatos costumam gerar consequências como baixo desempenho acadêmico, aumento de atos de indisciplina e de vandalismo provocados pela intolerância, além de falta de rotina e de comprometimento com os estudos. Os alunos perceberam que não precisam se esforçar muito para “passar de ano”, pois nos últimos dois anos foram aprovados estudando o mínimo possível, e que não “pega” nada, devido à falta de punição. 

O problema está posto. Não adianta procurar culpados ou desculpas. A violência nas escolas é responsabilidade de todos, pois sabemos que a escola é reflexo da sociedade. É a sociedade que está violenta, intolerante e caótica. Como educador, acredito no poder transformador da educação. Esta transformação acontece a partir de um trabalho sistemático e colaborativo, focado na melhoria da convivência e do clima escolar positivo, numa atitude de acolhimento e de corresponsabilidade. Em seu livro Eu controlo como me sinto: como a neurociência pode ajudar você a construir uma vida mais feliz (editora Planeta, 2021), a neurocientista Claudia Feitosa-Santana afirma que “não é possível enxergar emoções, pensamentos e sentimentos dos outros com as lentes que usamos para ler nossas próprias emoções, pensamentos e sentimentos”. 

Portanto, precisamos aprender a escutar ativamente e a acolher sem julgar ou dar lições de moral. E muito menos minimizar ou desqualificar o sentimento do outro. Pois cada um age e reage aos estímulos a partir do seu estado emocional. O respeito e a valorização das diferenças são essenciais para a convivência harmoniosa e solidária. 

Cezar Sena - Mestre em Educação – PUC/SP; Especialista em Gestão – USP; MBA em Gestão Empreendedora – UFf; Diretor de Escola Estadual e Prof. Universitário. Insta: @cezar.senaoficial / Youtube: Cezar Sena

quinta-feira, 23 de julho de 2020

EDUCAÇÃO SEM ESCOLA: E AGORA?



Cezar Sena

MESTRE EM EDUCAÇÃO - PUC/SP; COACH - SLAC; MBA Gestão Empreendedora - UFF Especialista em Gestão da Escola - USP; Pedagogo, Psicopedagogo e Neuropsicopedagogo. Professor Faculdade CENSUPEG e Diretor da EE Valêncio Soares Rodrigues. Insta: @cezar.sena Youtube: Cezar Sena

Hoje, mais que nunca, se percebe a importância da educação escolar. Neste período de escolas fechadas, evidenciam outras opções (aplicativos, videoaulas, blogs, lives, etc.), mas a pergunta é: como os pais vão ensinar e orientar sem procedimentos didáticos adequados? Será que os pais estão dando conta de ensinar os conteúdos? A resposta é NÃO! Por mais que tenham boa vontade, falta-lhes a didática, ou seja, o modo COMO ensinar. A educação escolar não acontece de modo improvisado, sem um planejamento pedagógico. Creio que depois da equipe da saúde, os PROFESSORES são os profissionais mais desejados (ou requisitados?) neste momento de isolamento social e de aulas remotas.

Diferente do que muitos pensam, que ensinar é fácil ou que qualquer um pode fazer, lembro-me daquele ditado: “de médico, professor e louco, todo mundo tem um pouco”. Genericamente até pode ser verdade. Mas o ato de ensinar exige que os pais, ao ensinarem, saibam fazer perguntas desencadeadoras que levem à aprendizagem. “Fazer perguntas frequentes, rigorosas e dirigidas a diferentes alunos, à medida que vão demonstrando maior domínio da matéria, é uma ferramenta poderosa e simples para trabalhar com os alunos que têm diferentes níveis de habilidades e ritmos de aprendizagem” (DOUG, 2011:60).

Desse modo, penso que se torna difícil aos pais fazerem as perguntas certas para despertarem a aprendizagem dos seus filhos, e mais árdua ainda quando se tem filhos em diferentes etapas de ensino. Muitos por não terem essa didática ou mesmo o conhecimento a respeito da variedade de conteúdo acabam perdendo a paciência, criando tensões e desgastes emocionais, deste modo, reforçando ainda mais os conflitos de gerações e de culturas.

O desafio está posto. Precisamos adequar a realidade com humildade, para reconhecer que muitos alunos ficarão para trás. Aliás, continuarão. A escola já não vinha dando conta do seu papel de ensinar todos no modo presencial, o contexto apenas evidenciou a situação. Não estou sendo pessimista ou alarmista, os dados com os resultados do último PISA** confirma essa lamentável situação.

De acordo com portal UOL* os dados do PISA divulgados no quarto trimestre de 2019, os resultados não são muito animadores para o Brasil. Em comparação com os dados de 2015, a versão anterior, quando foram avaliados 70 países e territórios, o Brasil caiu da 63ª para a 67ª colocação em Ciências. Nessa disciplina, o país supera apenas países como Cazaquistão e Bósnia e Herzegovina, ficando para trás do Uruguai, Chile e Tailândia, por exemplo. Já em Matemática, o país desceu do 66º para o 71º posto, ficando à frente apenas de Argentina, Indonésia, Arábia Saudita, Marrocos, Kosovo, Panamá, Filipinas e República Dominicana. Em leitura, o país permaneceu praticamente estagnado, conseguindo apenas passar da 59ª para a 58ª posição, ficando atrás de países como México e Romênia.

Apesar dos esforços, sabemos que o ano escolar deixará “lacunas” na aprendizagem dos alunos, especialmente dos mais pobres. O novo modelo educacional exige ainda mais dos estudantes, habilidades como: disciplina, foco e responsabilidade. É preciso que assumam um papel ATIVO diante da sua aprendizagem a fim de desenvolver sua autonomia e autoconhecimento. Por outro lado, os professores também estão tendo que reaprender seu ofício. “Isso significa concentrar-se em mudar as maneiras como as pessoas pensam e interagem e reconhecer que os estudantes aprendem de formas múltiplas e que suas capacidades não são fixadas no momento do nascimento” (SENGE, 2005:72).

Assim, com o esforço de todos, é possível minimizar os impactos que este período de escolas fechadas deixará na vida escolar dos estudantes. Sem ilusão de acreditar que tudo ficará bem como num passe de mágica. Não irá! Mas com muita dedicação dos alunos, formação dos professores com técnicas contextualizadas, com o apoio e incentivo dos pais, levaremos pelo menos uns dois anos para corrigir as defasagens de aprendizagens que já vinham se arrastando. Um dos caminhos é a superação da concepção de ensino, mais tradicional, que não leva em conta os modos como os alunos aprendem.

Erick Mansur (2015), aponta que um dos problemas do ensino tradicional é a apresentação do conteúdo. Com frequência, é tirado diretamente dos livros ou das notas de aula do professor, dando aos estudantes pouco incentivo para assistir às aulas. O problema é a apresentação tradicional do conteúdo, que consiste em quase sempre num monólogo diante de uma plateia passiva. O modelo educacional que mais tem dado resultados positivos é o chamado de “aprendizagem ativas”, defendido por Mansur no seu livro “Peer Instruction: a Revolução da Aprendizagem Ativa”. Neste modelo os alunos participam ativamente de todos os processos, numa aprendizagem colaborativa e solidária.

Como diretor de escola pública, percebo as dificuldades de adaptação neste contexto: alunos, professores e familiares, estão angustiados, com a sensação de insegurança e impotência diante de algo maior e invisível, o VÍRUS. Neste sentido, uma das saídas possíveis é o engajamento de todos numa ação solidária, colaborativa e responsável. Não podemos perder a esperança de que dias melhores virão. Mas não uma esperança passiva. Não apenas ficar esperando um milagre. Nas palavras de Cortella (2020) o grande pensador da educação, Paulo Freire, dizia que é preciso ter esperança para chegar ao inédito viável e ao sonho. Cuidado! Há pessoas que têm esperança do verbo esperar. Esse grande educador e filósofo falava da esperança do verbo “esperançar”. Esperar é: “Ah, eu espero que dê certo, espero que aconteça, espero que resolva”. “Esperançar” é ir atrás, é não desistir. “Esperançar” é ser capaz de buscar o que é viável para fazer o inédito. “Esperançar” significa não se conformar.

REFERÊNCIAS

CORTELLA. Mário Sérgio. O verbo esperançar. Disponível em: http://www.mscortella.com.br/o-verbo-esperancar-4a. Acesso em 20 de jul. 2020.

DOUG, Lemov. Aula nota 10. 49 técnicas para ser um professor campeão de audiência. São Paulo: Da Boa Prosa: Fundação Lemann, 2011.

ERICK, Mansur. Peer instrucion: a revolução da aprendizagem ativa. Tradução: Anatólio Laschuk. – Porto Alegre: Penso, 2015.

SENGE, Peter. Escolas que aprendem: um guia da Quinta Disciplina para educadores, pais e todos que interessa pela educação. Porto Alegre: Artmed, 2005.

*O PISA - Programa Internacional de Avaliação de Alunos – é uma avaliação internacional que mede o nível educacional de jovens de 15 anos por meio de provas de Leitura, Matemática e Ciências.

terça-feira, 14 de julho de 2020

EDUCAÇÃO MEDIADA POR TECNOLOGIAS X EMOÇÃO



Cezar Sena

MESTRE EM EDUCAÇÃO - PUC/SP; COACH - SLAC; MBA Gestão Empreendedora - UFF Especialista em Gestão da Escola - USP; Pedagogo, Psicopedagogo e Neuropsicopedagogo. Professor Faculdade CENSUPEG e Diretor da EE Valêncio Soares Rodrigues. Instagram: @cezar.sena Youtube: Cezar Sena

Nesse tempo de pandemia, os alunos e professores estão com as emoções à flor da pele, e muito se deve ao excesso de exposição nas mídias sociais e às atividades escolares remotas, não estão conseguindo administrar as emoções. “A emoção é uma forma concreta de participação mútua do indivíduo no mundo, ela tem o caráter fisiológico e contagioso, colabora para estabelecer relacionamentos e possibilita interações sociais" (SENA, 2013:101).

Acredito que a ação mais importante no atual cenário de pandemia, seja cuidar das nossas emoções, da saúde mental. Sabe-se que cuidando das emoções, nos preparamos melhor para lidar rapidamente com os eventos da vida. “As emoções também enviam sinais, mudanças nas expressões, na face, na voz, na postura corporal. Não escolhemos essa mudança, elas simplesmente acontecem" (EKMAN, 2011:37).

Em uma pesquisa que realizei por meio do Google form com os alunos líderes de turma da EE Valêncio Soares Rodrigues*. Eles relataram que estão ainda mais ansiosos e angustiados, com muitas dificuldades de gerenciar os estudos, as emoções e as demandas com as tarefas domésticas. Na pergunta ‘Como estão se sentindo neste período de isolamento social?’ alguns apontaram que:

• Em curtas palavras prefiro dizer que aguardo ansiosamente as aulas presenciais e o fim do afastamento social;
• Muito triste, entediada, angustiada;
• Insegurança em não atingir os alunos que mais precisam. Aqueles com vulnerabilidade social.
• Triste e confusa, desanimada, ansiosa;
• Sei lá e diferente eu me sinto diferente. Muito mal.
• Se sentindo sozinho, saudades dos meus sem amigos.

Relatam também que estão se sentindo incapazes por não conseguirem acompanhar as atividades pelo aplicativo, que se perdem nas mensagens, bem como em conversas paralelas durante as aulas. Como podemos observar neste depoimento: “Triste porque o isolamento social está atrapalhando muito meu aprendizado por que na escola sempre tem um professor pra explicar, mas no aplicativo eu não consigo perguntar as minhas dúvidas”.

De acordo com Sena (2013:81) “a escola tem um papel primordial na formação, é um lugar onde convivem diferentes grupos e a criança exercita suas potencialidades, mas também são revelados seus fracassos”. Como podemos comprovar nos depoimentos acima, esse período de isolamento, por falta da escola, os alunos estão com muitas dificuldades de aprender os conteúdos. Sentem-se falta da presença física do professor como o principal mediador da aprendizagem, resultando em muitos o sentimento de frustração e incompetência como bem apontou esse aluno “me sinto pouco frustrado, algumas matérias são difíceis de entender sem um professor por perto (matemática por exemplo)”.

A falta de convivência entre os pares, estão deixando-os abalados, com medo, reforçando ainda mais a ideia do seu possível fracasso, atenuando as dificuldades de aprendizagem. Conviver é um dos grandes desafios da sala de aula, e a presença do professor é determinante no gerenciamento deste espaço de convivência. “É na interação entre os pares que a aprendizagem acontece de maneira significativa e autônoma, por isso é importante o professor conhecer o contexto social do seu aluno, para promover uma aprendizagem mais significativa" (SENA:118).

Este período de isolamento reforçou ainda mais a importância da ação do professor como mediador da aprendizagem, por mais que a tecnologia se colocou como uma ferramenta indispensável neste contexto atual, ela jamais substituirá a ação do professor. No entanto, o professor precisa desenvolver um novo hábito, incorporando no seu fazer pedagógico novas estratégias alinhadas as mídias sociais e o uso das tecnologias. “Quando você começa a formar o novo e melhor hábito, está essencialmente criando novos circuitos que compitam com seu velho hábito numa espécie de darwinismo neural” (GOLEMAN, 2012:100).

A portabilidade da educação presencial para a educação mediada por tecnologias necessita de uma mudança de postura de todos os envolvidos, isso não é e nem será um consenso. Ainda assim, é uma necessidade urgente, provocada pela pandemia do COVID19, que apenas acelerou o processo. Há muitos aspectos positivos com o uso da tecnologia na educação, como aponta o Salman Khan, o fundador da Khan Academy, “a portabilidade radical da educação baseada na internet torna possível que cada um estude de acordo com o seu próprio ritmo, e portanto, com a máxima eficiência” (KHAN, 2013:61).

Assim, para melhorar a eficiência nos estudos neste momento de transição, sugiro duas estratégias para evitar a perda do foco nos estudos:
1. Deixe o aparelho celular no modo silencioso; estabeleça um horário para o estudo e outro para coisas aleatórias, como por exemplo, a checagem de mensagens. Neste caso, prefira checá-las após a realização da tarefa programada, como se fosse um prêmio.
2. Outra dica é o uso de agenda com checklist das tarefas, com conferência ao final do dia. Seu cérebro agradece, pois adora recompensas. É gratificante a sensação de ter realizado as metas. Isso o torna mais produtivo e o estimula a querer produzir mais.

Lembrem-se de que não somos indivíduos que realizam várias tarefas ao mesmo tempo, como erroneamente alguns acreditam. A neurociência aponta que o cérebro não consegue processar dois estímulos ao mesmo tempo e nem armazenar todos os conteúdos das aulas como no arquivo digital. “O cérebro não armazena fatos e ideias e experiencias como um computador, como um arquivo que se abre por um clique, exibindo sempre a imagem idêntica. Ele os incorpora em redes de percepções, fatos e pensamentos, combinações ligeiramente diferentes que pipocam a cada vez” (COREY, 2015:18).

Portanto, procurem conhecer como seu cérebro funciona, realizando uma tarefa de cada vez, logo irá perceber que enquanto a produtividade aumenta, a ansiedade diminui e a estabilidade emocional se estabelece.

*Escola Estadual de Ensino Integral, situada em Vargem Grande Paulista, SP. Pesquisa realizada com os alunos Líderes de turmas pelo GOOGLE FORM em 09 de junho de 2020 (atividade para o Conselho de Classe 1º Bim.) Alunos do Ensino Fundamental e Médio com idade entre 11 a 17 anos).

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

EKMAN, Paul. A linguagem das emoções: Revolucione sua comunicação e seus relacionamentos reconhecendo todas as expressões das pessoas ao seu redor. São Paulo: Lua de Papel, 2011.
GOLEMAN, Daniel. O cérebro e a inteligência emocional: novas perspectivas. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.
KHAN, Salman. Um mundo, uma escola. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2013.
SENA, Cezar. A relação afetiva professor e aluno, revelada por seus diários. Curitiba: Appris, 2013.

Biografia de CEZAR SENA: Educador, Gestor, Escritor e Mentor

  Introdução Cezar Sena construiu uma trajetória guiada pela convicção de que o conhecimento só ganha sentido quando transforma vidas. Do ...