Por Cezar Sena
Há
datas no calendário que deixam de ser meros marcadores de tempo e se
transformam em espelhos da alma. Este 2 de novembro carrega um peso inédito,
uma gravidade que eu jamais havia experimentado antes: é o meu primeiro Dia
de Finados sem a minha mãe.
Sempre
olhei para esta data com o respeito distante de quem consolava a dor alheia.
Hoje, ela me habita por inteiro. Mas o que mais dói nesta ausência não é apenas
a saudade da voz, do abraço ou das conversas ao fim do dia. O que este primeiro
Finados escancara é uma percepção triste, profundamente realista e incômoda: quando
uma mãe morre, ocorre uma fissura invisível, porém devastadora, nos vínculos da
família.
Minha
mãe não era apenas a matriarca; ela era a gravidade da nossa família. Era a força silenciosa e soberana que
mantinha todos em sintonia. Bastava a sua presença — ou a certeza de que ela
estava ali — para que qualquer divergência se apequenasse e para que o
sentimento de pertencimento nos mantivesse unidos. Ela era o grande elo.
E
quando esse elo se quebra, o choque da realidade nos atinge sem amortecedores.
Todos nós nos tornamos terrivelmente frágeis.
Diante
do túmulo, no dia da partida, as promessas jorram com a força do desespero, da
emoção e da comoção. Juramos que continuaremos unidos e que honraremos a
memória de quem nos deu o chão. São promessas sinceras, nascidas do amor
puro. Contudo, o tempo — esse escultor implacável da vida cotidiana — vai se
encarregando de mostrar a complexidade do luto. Aos poucos, percebemos as
pontes se dilatando, os contatos ficando mais espaçados, os elos se afrouxando.
Sem
o porto seguro, que era a minha mãe, cada um, passa a recolher seus próprios
cacos no seu próprio canto. A casa que antes transbordava vida e encontros
passa a enfrentar o eco do silêncio. Fica a constatação dolorosa de que a união
familiar, muitas vezes, não era uma construção orgânica entre os irmãos, mas
sim o reflexo direto da existência daquela mulher. Era por ela que nos
juntávamos; era para ela que voltávamos.
É
incômodo admitir essa fragilidade. Dá uma sensação de desamparo constatar que,
sem a minha mãe, a teia que nos segurava se tornou mais fina e suscetível aos
ventos da vida.
Neste
Finados, acendo uma vela não apenas para honrar a memória da mulher incrível
que me educou com firmeza, amor e valores inegociáveis. Acendo também como uma
prece de lucidez. Para que, ao olhar para essa rocha partida que era a nossa
estrutura, possamos reordenar os afetos. Que possamos entender que a melhor
forma de honrar o elo que minha mãe foi em vida é não deixar que a distância e
o esquecimento apaguem a herança de amor e respeito que ela plantou em cada um
de nós.
Sua
falta dói, minha mãe. Mas o seu legado continua sendo a minha maior bússola.
Obrigado por tudo e para sempre!

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