segunda-feira, 2 de novembro de 2026

O ELO PARTIDO E O SILÊNCIO DA AUSÊNCIA: UMA REFLEXÃO NO PRIMEIRO DIA DE FINADOS SEM A MINHA MÃE

 

Por Cezar Sena


Há datas no calendário que deixam de ser meros marcadores de tempo e se transformam em espelhos da alma. Este 2 de novembro carrega um peso inédito, uma gravidade que eu jamais havia experimentado antes: é o meu primeiro Dia de Finados sem a minha mãe.

 

Sempre olhei para esta data com o respeito distante de quem consolava a dor alheia. Hoje, ela me habita por inteiro. Mas o que mais dói nesta ausência não é apenas a saudade da voz, do abraço ou das conversas ao fim do dia. O que este primeiro Finados escancara é uma percepção triste, profundamente realista e incômoda: quando uma mãe morre, ocorre uma fissura invisível, porém devastadora, nos vínculos da família.

 

Minha mãe não era apenas a matriarca; ela era a gravidade da nossa família. Era a força silenciosa e soberana que mantinha todos em sintonia. Bastava a sua presença — ou a certeza de que ela estava ali — para que qualquer divergência se apequenasse e para que o sentimento de pertencimento nos mantivesse unidos. Ela era o grande elo.

 

E quando esse elo se quebra, o choque da realidade nos atinge sem amortecedores. Todos nós nos tornamos terrivelmente frágeis.

 

Diante do túmulo, no dia da partida, as promessas jorram com a força do desespero, da emoção e da comoção. Juramos que continuaremos unidos e que honraremos a memória de quem nos deu o chão. São promessas sinceras, nascidas do amor puro. Contudo, o tempo — esse escultor implacável da vida cotidiana — vai se encarregando de mostrar a complexidade do luto. Aos poucos, percebemos as pontes se dilatando, os contatos ficando mais espaçados, os elos se afrouxando.

 

Sem o porto seguro, que era a minha mãe, cada um, passa a recolher seus próprios cacos no seu próprio canto. A casa que antes transbordava vida e encontros passa a enfrentar o eco do silêncio. Fica a constatação dolorosa de que a união familiar, muitas vezes, não era uma construção orgânica entre os irmãos, mas sim o reflexo direto da existência daquela mulher. Era por ela que nos juntávamos; era para ela que voltávamos.

 

É incômodo admitir essa fragilidade. Dá uma sensação de desamparo constatar que, sem a minha mãe, a teia que nos segurava se tornou mais fina e suscetível aos ventos da vida.

 

Neste Finados, acendo uma vela não apenas para honrar a memória da mulher incrível que me educou com firmeza, amor e valores inegociáveis. Acendo também como uma prece de lucidez. Para que, ao olhar para essa rocha partida que era a nossa estrutura, possamos reordenar os afetos. Que possamos entender que a melhor forma de honrar o elo que minha mãe foi em vida é não deixar que a distância e o esquecimento apaguem a herança de amor e respeito que ela plantou em cada um de nós.

 

Sua falta dói, minha mãe. Mas o seu legado continua sendo a minha maior bússola. Obrigado por tudo e para sempre!

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