segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

RESUMO - VIDA E OBRA HENRI WALLON - As emoções são a exteriorização da afetividade (...) Nelas que se assentam os exercícios gregários que são uma forma primitiva de comunhão e de comunidade. As relações que elas tornam possíveis afinam os seus meios de expressão, e fazem deles instrumentos de sociabilidade cada vez mais especializados. (Wallon, 1975:143)

1. BREVE BIOGRAFIA Henri Wallon nasceu em Paris, França, em 15 de junho de 1879. Viveu em Paris até a sua morte, em 1962. Foi muito influenciado pelas idéias liberais, republicanas e humanistas de seu avô e seu pai. Interessou-se pela ciência, especialmente pela psicologia. Aos 23 anos formou em filosofia, iniciando sua vida profissional, lecionando Filosofia no Liceu Bar-le-Duc. Desde sua juventude, pleiteava a igualdade e a solidariedade entre os homens. Formou em medicina aos 29 anos. De 1914 até 1918, foi mobilizado como médico de batalhão, dedicando ao tratamento dos feridos de guerra, nesta ocasião teve a oportunidade de aprofundar as relações entre as manifestações psíquicas e orgânicas das lesões. A partir do contato com os ex-combatentes elaborou uma revisão de seus estudos. Até 1931, atuou como médico em instituições psiquiatras, onde se dedicou às crianças com deficiências neurológicas e distúrbios de comportamento. Esse seu trabalho leva-o a um interesse cada vez maior pela psicologia da criança, tendo sido responsável, no período de 1920 a 1937, pelas conferências sobre a psicologia da criança, em várias instituições da criança, em várias instituições de ensino superior. Viveu intensamente sua vida, num momento social de muita mudança e contestação, como afirma Isabel Galvão (1995:17) “Henri Wallon viveu num período marcado por muita instabilidade social e turbulência política. Acontecimentos como as duas guerras mundiais (1914 -18 e 1939 – 45), o avanço do fascismo no período entre guerras, as revoluções socialistas e as guerras para a libertação das colônias na África atingiram boa parte da Europa e, em especial, a França”. Durante a ocupação Alemã, de 1940 e 1944, Wallon foi perseguido e acuado, vivendo um tempo na clandestinidade, utilizando um pseudônimo de René Hubert, morando em cômodos insalubres, fugindo do governo fascista de Vichy e pela policia de Hitler. Em 1941 foi proibido de lecionar, mas continuou encontrado com seus discípulos na clandestinidade. Segundo Zazzo (1978) “Walon viveu com intensidade e complexidade, a perplexidade das relações com outrem e que foi graças a esta experiência, ora dolorosa, ora exultante, que se tornou o psicólogo que conhecemos”. Este seu discípulo o descreve com tanta humanidade e emoção, como podemos comprovar no trecho abaixo: Minha compreensão de Wallon é feita tanto de simpatia como de razão. Os seus escritos falam-me com a sua voz, com a entoação da sua voz que eu sei, em tal palavra, em tal frase, em tal argumento, hesitante ou peremptória. Não posso meditar sobre sua obra sem o ouvir, sem o ver. (Zazzo, 1978:147) Wallon foi chamado em 1944, a integrar uma comissão nomeada pelo Ministério da Educação Nacional, sendo um dos encarregados da reformulação do sistema de ensino Francês, assumindo a presidência desta comissão após a morte do físico Paul Langevin. Os trabalhos da comissão resultaram num ambicioso projeto de reforma do ensino chamado o Plano Langevin-Wallon. Segundo Galvão, (1995) “este projeto é a expressão mais concreta de seu pensamento pedagógico. Portador do espírito reinante na Resistência, o plano representa as esperanças em uma educação mais justa para uma sociedade mais justa”. Apesar de tantos esforços este plano não chegou a ser implantado. Em 1948, cria a revista Enfance, publicação que deveria ser ao mesmo tempo instrumento para os pesquisadores em psicologia e fonte e informações para os educadores. Esta revista é publicada até hoje tentando seguir a mesma linha editorial da primeira publicação. Ao longo da sua trajetória, o psicólogo Henri Wallon foi aproximando cada vez mais da educação. Participando ativamente do debate educacional de sua época, juntando ao Movimento da Escola Nova, que criticava o ensino tradicional. Escreveu diversos artigos sobre temas ligados à educação, como orientação profissional, formação do professor, interação entre alunos, adaptação escolar. Presidiu o grupo Francês de Escola Nova de 1946 a 1962. Nessa função reuniu com vários educadores para trocar experiências e refletir a respeito dos problemas concretos do ensino primário. A psicologia genética é um estudo focado nas origens, na gênese dos processos psíquicos. Conforme Galvão (1995), Wallon propõe o estudo integrado do desenvolvimento – afetividade, motricidade, inteligência -, como campos funcionais entre os quais se distribui a atividade infantil. O homem é um ser “geneticamente social”. É a psicogênese da pessoa completa. Wallon parte do pressuposto de que o conhecimento está fora do individuo, ou seja, está no social, e a grande mola impulsionadora é a motricidade. Ao contrário de Piaget, que buscava a gênese da inteligência, Wallon pretendia a gênese da pessoa. Segundo Mahoney (2004:14) o “foco das descrições e explicações da teoria de Henri Wallon é essa relação da criança com o seu meio, uma relação recíproca, complementar entre fatores orgânicos e socioculturais. Esta transformação e é nela que se constrói a pessoa”. Desta forma, o sujeito é determinado fisiológica e socialmente, ou seja, é resultado tanto das disposições internas quanto das situações exteriores. A psicogênese da pessoa completa é o estudo da pessoa em todos seus aspectos afetivos, cognitivos e motores de maneira integrada. O estudo do desenvolvimento humano deve considerar o sujeito como “geneticamente social”, e realizar os estudos da criança contextualizada, nas relações com o meio. A partir das reações das pessoas à sua volta, aos seus reflexos e movimentos impulsivos, a criança passa atuar no ambiente humano, desenvolvendo o que Wallon denomina de motricidade expressiva, os seja, a dimensão afetiva do movimento. A criança é essencialmente emocional e, gradativamente, vai adquirindo-se um ser sócio cognitivo. Segundo Galvão (1995), Wallon argumenta que as trocas relacionais das crianças, com os outros, são fundamentais para o desenvolvimento da pessoa. As crianças nascem imersas em um mundo cultural e simbólico, no qual ficarão envolvidas em um “sincretismo subjetivo” por, pelo menos, três anos. Durante esse período, de completa indiferenciação entre a criança e o ambiente humano, sua compreensão das coisas dependerá dos outros, que darão, às suas ações e movimentos, formato e expressão. A função simbólica inibe o movimento, ou seja, a partir do momento em que o sujeito assimila os signos sociais (fala, escrita, etc.) a comunicação motora passa a ser substituída por outros meios. No seu desenvolvimento, o sujeito caminha do sincretismo (sentimentos de idéias confusas, sem clareza da situação) em direção à diferenciação (sentimentos mais claros e adequados às necessidades que a situação apresenta). A aquisição da linguagem muda radicalmente à forma de relação da criança com o meio. A linguagem é indispensável ao progresso do pensamento. Wallon dá grande importância ao meio na constituição da pessoa. Assim a pessoa deve ser vista integrada ao meio do qual é parte constitutiva, e no qual, ao mesmo tempo, se constitui; como podemos verificar em Galvão (1995) mostrando que Wallon argumenta que as trocas relacionais da criança com os outros são fundamentais para o desenvolvimento da pessoa. Para ele, o meio social e a cultura constituem as condições, as possibilidades e os limites do desenvolvimento do organismo. Wallon propõe estágios de desenvolvimento, assim como Piaget, porém, ele não é adepto da idéia de que a criança cresce de maneira linear e continuo, mas sim, a integração de novas funções e aquisições anteriores. O desenvolvimento humano é dialético. 3. ESTÁGIOS DO DESENVOLVIMENTO SEGUNDO HENRI WALLON A dimensão temporal do desenvolvimento para Walon vai do nascimento até a sua morte, distribuídos em estágios, numa seqüência característica da espécie, embora seu conteúdo varie histórica e culturalmente.Os estágios são: impulsivo- emocional, sensório-motor e projetivo, personalismo, categorial, puberdade e adolescência. Para o autor em cada estágio há uma pessoa completa. 1º Estagio - Impulsivo-emocional: (0 a 1 ano). Os primeiros meses de vida caracterizam-se por uma fusão total com o meio e pelo desenvolvimento rápido e completo dos automatismos emocionais responsáveis pela mobilização do meio humano para a satisfação das necessidades dos bebês. Estes automatismos dependem de centros nervosos especiais e aparece na criança como fato de maturação. A criança expressa sua afetividade através de movimentos descoordenados, respondendo a sensibilidades corporais. Os atos da criança têm o objetivo de chamar a atenção do adulto para que se satisfaça a sua necessidade e garanta a sua sobrevivência, pois: “o recurso de aprendizagem neste momento é a fusão com outros. O processo ensino-aprendizagem exige respostas corporais, contactos epidérmicos, daí a importância de se ligar com o cuidador, que segure, carregue, que embale. Através desta fusão, a criança participa intensamente do ambiente e, apesar de percepções, sensações nebulosas, pouco claras, vai se familiarizando e apreendendo esse mundo, portanto, iniciando um processo de diferenciação”. (Mahoney e Almeida, 2005) 2º Estágio - Sensório-motor e projetivo: (1 a 3 anos). A criança realiza um extenso e diferenciado acordo entre as percepções e os movimentos. Esta relação em sua forma mais simples é o ato reflexo, ou seja, a uma determinada excitação corresponde um determinado movimento. Com a maturação neurológica, os reflexos são inibidos e a criança se torna capaz de realizar exercícios sensório-motores que conduzem a um duplo resultado: ligar o efeito perceptível aos movimentos próprios para produzi-los, e diversificar os movimentos e os efeitos possíveis. Com a aquisição dos movimentos da marcha e da pressão, a criança adquire autonomia na manipulação dos objetos e na exploração dos espaços. Neste estágio ocorre o desenvolvimento da função simbólica e da linguagem. A criança aprende a conhecer os outros como pessoas em oposição à sua própria existência. No estágio sensório-motor, permanece a subordinação a um sincretismo subjetivo (a lógica da criança ainda não está presente), predomina as relações cognitivas da criança com o meio. Wallon identifica o sincretismo como sendo a principal característica do pensamento infantil. 3º Estágio - Personalismo: (3 a 6 anos). Construção da consciência de si, mediante as interações sociais. Ela percebe as relações e os papéis diferentes dentro do universo familiar, ao mesmo tempo em que se percebe como um elemento fixo, como ser o filho mais velho ou o mais novo, ser filho e irmão, assim por diante. Nessa idade, a criança também costuma ingressar na escola maternal, inserindo-se numa comunidade de crianças semelhantes a ela, onde as relações serão diferentes das relações familiares. Nesta fase a criança está voltada novamente para si própria, ela é mediada pela fala e pelo domínio do “meu/minha”, faz com que as idéias atinjam o sentimento de propriedade das coisas. A tarefa central é o processo de formação da personalidade. No personalismo a criança aprende principalmente pela oposição ao outro, pela descoberta do que a distingue de outras pessoas, pelo deslocamento da inteligência prática, ou das situações para a inteligência verbal, ou representativa. 4º Estágio - Categorial: (7 a 12 anos). Neste estágio os progressos intelectuais dirigem o interesse da criança para as coisas, para o conhecimento e conquistas do mundo exterior. É a idade da escolaridade obrigatória na maioria dos países. O desenvolvimento cognitivo da criança está aguçado e a sua sociabilidade ampliada. A criança se vê capaz de participar de vários grupos com graus e classificações diferentes segundo as atividades de que participa, como afirma Wallon: “A criança já não é função unicamente do grupo familiar. Concebe-se no meio dos seus camaradas como unidade que se pode acrescentar a grupos diferentes, que se pode classificar de modo diferente, segundo as actividades nas quais toma parte: a corrida, a facilidade na aprendizagem da leitura, do cálculo, etc. A criança é capaz de se ver como uma unidade suscetível de entrar em vários grupos e, juntando-se-lhes, de os modificar”. (Wallon 1975:213) 5º Estágio – puberdade e adolescência: (12 anos em diante). Fase marcada pelas transformações fisiológicas e psíquicas, com preponderância afetiva. Há nova definição dos contornos da personalidade, que ficam desestruturados com as transformações ocorridas. Wallon afirma que, neste período, torna-se bastante visível o condicionamento da pessoa pelo meio social. Nesse estágio, os sentimentos se alternam procurando buscar a consciência de si na figura do outro, contrapondo–se a ele, além de incorporar uma nova percepção temporal. O meio social e cultural passam a ser de grande importância. Os adolescentes tornam-se intolerantes em relação às regras e ao controle exercidos pelos pais, e necessitam identificar-se com seu grupo de amigos. Na adolescência torna-se bastante visível a forma como o meio social condiciona a existência da pessoa, configurando-se a personalidade de maneiras diversas. Enquanto os adolescentes de classe média exteriorizam seus sentimentos e questionam valores e padrões morais, os de classes operárias, que enfrentam precocemente a realidade social do adulto, a necessidade de trabalho, vivem essa fase de outra maneira, pois têm de contribuir para a subsistência da família. O processo de socialização dá-se pelo contato com o outro e, também, pelo contato com a produção do outro (texto, pintura, música, etc). Para Wallon, a cultura geral aproxima os homens, pois permite a identificação de uns com os outros. Ao contrário, a cultura específica os separa. Neste estágio, segundo Mahoney e Almeida, 2005 “o recurso principal de aprendizagem do ponto de vista afetivo volta a ser a oposição, que vai aprofundando e possibilitando a identificação das diferenças entre idéias, sentimentos, valores próprios e do outro, adulto, na busca para responder: quem sou eu? Quais são meus valores? Quem serei no futuro?, que é permeada por muitas ambigüidades. 4. TEORIA DA EMOÇÃO Na teoria de Wallon, a dimensão afetiva ocupa lugar central, tanto do ponto de vista da construção da pessoa, quanto do conhecimento. A emoção é vista como um instrumento de sobrevivência, típico da espécie humana; se não fosse pela capacidade de mobilizar poderosamente o ambiente no sentido do atendimento de suas necessidades, o bebê humano não sobreviveria. A sua teoria da emoção é extremamente original, tem uma inspiração darwinista. A emoção, antes da linguagem, é o meio utilizado pelo recém-nascido para estabelecer uma relação com o mundo externo. Não é por acaso que seu choro atua de forma tão intensa, sobre a mãe: é esta a função biológic que dá origem a um dos traços característicos da expressão emocional: sua alta cotagiosidade, seu poder epidêmico. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS GALVÃO, Isabel. Henri Wallon: uma concepção dialética do desenvolvimento infantil. Petrópolis, RJ: Vozes, 1995 MAHONEY Abigail Alvarenga; ALMEIDA Laurinda Ramalho de. Afetividade e processo ensino-aprendizagem: contribuições de Henri Wallon. Psicologia da Educação, São Paulo, v. 20, 2005. MAHONEY, Abigail Alvarenga; ALMEIDA, Laurinda Ramalho (org). A constituição da Pessoa na proposta de Henri Wallon. São Paulo, Edições Loyola, 2004. RODRIGUES, Sandro Rodrigues, SILVA, Ana Tereza Reis da, PARIZ, Josiane Domingas Bertoja. Teorias da Aprendizagem. Curitiba: IESDE, 2003. WALLON, Henri. Psicologia e educação da infância. Lisboa: Estampa, 1975. ZAZZO, René. Henri Wallon: psicologia e Maxismo. Lisboa, Veja,1978.

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