sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Educação: falar menos e fazer mais (Artigo)

Educação: falar menos e fazer mais (Artigo)

Em 1932, um grupo de 26 intelectuais, entre eles Anísio Teixeira, Cecília Meireles, Fernando de Azevedo e Roquete Pinto, lançou o Manifesto dos pioneiros da educação, no qual consta: "Na hierarquia dos problemas nacionais, nenhum sobreleva em importância e gravidade ao da educação (...) Todos os nossos esforços, sem unidade de plano e sem espírito de continuidade, não lograram ainda criar um sistema de organização escolar à altura das necessidades modernas e das necessidades do país. Tudo fragmentado e desarticulado". Passaram-se 84 anos e o documento é contemporâneo. Se naquela época as recomendações dos nossos pioneiros tivessem sido seguidas, certamente estaríamos hoje mais bem preparados para atender à demanda crescente por novas capacitações e atitudes.
A medida provisória que propõe alterações no ensino médio colocou a educação na pauta da sociedade. No Brasil, o sistema de pós-graduação está em um patamar de qualidade aceitável. No entanto, esse não é o caso dos demais níveis de ensino. Avaliações periódicas conduzidas nos últimos anos vêm constatando uma queda na qualidade de educação do ensino fundamental e médio. De modo geral, os egressos do ensino médio entram nos cursos universitários despreparados, pois foram submetidos a um processo educacional ultrapassado, focado no treinamento do aluno para passar nas provas, sem valorizar o desenvolvimento de sua capacidade crítica e criativa.

O reconhecimento da importância do papel da educação na sociedade tem mobilizado os governos de quase todos os países do mundo no sentido de implementar políticas para o seu desenvolvimento. No Brasil, infelizmente, não avançamos na conquista de uma educação de boa qualidade para todos. O primeiro Plano Nacional de Educação foi um fracasso. O segundo plano parece seguir na mesma trilha devido à escassez de recursos para sua implementação. Essa falta de visibilidade de resultados é desalentadora para os muitos que labutam na área de educação.

Encontramo-nos em quadro de imensa desigualdade social, com uma parcela considerável da população marginalizada, sem condições dignas de moradia, sem acesso a serviços de educação e saúde de boa qualidade, sendo muitas vezes exposta aos riscos de ambientes marcados pela falta de ética e violência. Nesse contexto, a educação de boa qualidade surge como a única saída para livrar o indivíduo do círculo vicioso em que se encontra, na medida em que promove a conscientização dos seus direitos e atitudes, além, evidentemente, de desenvolver competências e habilidades que lhe possam ser úteis no campo profissional.

O tema educação não pode ser colocado somente, como ocorre, no cardápio das promessas dos candidatos a cargos no governo. A estagnação ou retrocessos no nosso sistema educacional comprometerá o futuro das próximas gerações e do país. As soluções estão à disposição para o estabelecimento de uma política de estado de longo prazo que poderá redundar em uma verdadeira transformação social.

O primeiro passo será formar e valorizar o que chamo de novo professor. Um estimulador de crianças e jovens com capacidade de avaliar cada estudante para estimular as potencialidades individuais. Ele será, como um gênio da lâmpada, quem permitirá a concretização dos sonhos de cada estudante. Ele será o arquiteto de uma sociedade civilizada, com comportamento solidário e ético e que respeite o planeta. Esse novo professor deve dominar as ferramentas tecnológicas. O seu trabalho deve ser valorizado, e aos poucos, o seu salário deverá estar no topo da tabela salarial do servidor público.

Os clássicos métodos da aprendizagem devem ser substituídos por atividades em que haja o protagonismo do educando. A aula expositiva deve ser gradativamente substituída por trabalhos em grupo que envolvam temas, desafios e resolução de problemas. O ambiente escolar deve ser confortável e lúdico e as avaliações devem ser feitas não para classificar os alunos, mas para indicar a melhoria da aprendizagem. A família deverá ser um parceiro fundamental da escola. Estão à nossa disposição experiências educacionais de sucesso no Brasil e no exterior. Vamos fazer uma boa escolha e fazer um planejamento de escala para que possamos proporcionar uma educação de boa qualidade para todas as nossas crianças e jovens. Essa é a grande prioridade para o Brasil. É preciso fazer, para acontecer.

*ISAAC ROITMAN é Professor emérito e coordenador do Núcleo de Estudos do Futuro da Universidade de Brasília e membro do Movimento 2022 O Brasil que queremos
Veículo: CORREIO BRAZILIENSE - DF
Editoria: OPINIÃO
Autor(a): ISAAC ROITMAN
Tipo: Artigo
Veiculação: 04/11/2016
Página: A11
Assunto: UNB, PROFESSORES

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